Mensagens

2025.6 - Amizades

Imagem
Por vezes ansiamos tanto por construir uma amizade que acabamos por perder a capacidade de distinguir o que está certo do que está errado. Perdemos o discernimento para perceber quem se aproxima com boas intenções e quem o faz movido pelo egocentrismo. Há pouco lia num blogue que “não nascemos para viver sozinhos”. Não podia concordar mais. A nossa sobrevivência — emocional e até física — depende disso. É verdade também que devemos estar gratos por ter a nossa família, sobretudo quando se trata de uma família que nos apoia e acompanha a nossa caminhada incerta. No entanto, isso não invalida a necessidade profunda de criar amizades com quem nos rodeia, algo que se torna ainda mais valioso quando essas pessoas partilham dos nossos interesses, ideias e hábitos. Há perdas que nos deixam um vazio difícil de descrever. Perder uma amizade é um desses casos. E essa perda pode manifestar-se de várias formas. Há a amizade que desaparece depois de anos de cumplicidade, e há aquela que se perde q...

2025.5 - A noite

Imagem
  A noite era aquele período do dia que me trazia tranquilidade, uma espécie de paz de espírito e quietude. Entretanto, tem vindo a tornar-se um período de inquietação, um período de uma luta resultante de ambiguidades e dualidades que me desgastam, que me esgotam e que me prendem num beco sem saída. Se a solidão pode ser apreciada, pode igualmente ser sinónimo de temor... Se o silêncio pode ser como música para os ouvidos, pode igualmente ser sinónimo de solidão... gatilho para uma roda viva de "ses" que me fazem girar sem sair do lugar e, portanto, sem chegar a lugar algum. É como se fosse uma busca por alguém que pudesse ouvir, alguém que pudesse escutar, alguém que pudesse ajudar, alguém que me pudesse salvar. Salvar desse poço de incerteza, de receio relativamente ao amanhã. Me libertasse da aparente incapacidade de ser grato e, ao invés disso, dar abertura a pensamentos travessos e inoportunos que me arrastam consigo em direção a um mar revolto. É irónico procurarmos am...

2025.4 - Querido Edward - Ann Napolitano

Imagem
 ‘Querido Edward’, de Ann Napolitano, não foi um livro que me prendeu logo desde as primeiras páginas, mas, pouco a pouco, acabou por se revelar uma leitura marcante e envolvente.  A construção inicial das personagens exige alguma paciência, mas essa mesma preparação transforma cada uma delas em peças fundamentais na vida do jovem sobrevivente Edward, tornando a sua jornada ainda mais comovente.   Apesar de na sinopse serem apresentadas algumas características, ou algumas “etiquetas”, para as personagens que vamos encontrar no livro, quando fui ler o livro não reli a sinopse (como regra geral acontece, ou seja, leio uma sinopse, agrada-me, adiciono o livro à lista “para ler”, e quando vou finalmente ler, raramente releio a sinopse) e por isso as personagens que surgiram foram aparecendo como “surpresa”.  A estrutura do romance, alternando entre o presente e os momentos que antecederam a queda do avião, mantém a narrativa dinâmica e prende a atenção do leitor. Es...

2025.3 - É Cansativo

Imagem
É cansativo muita coisa nesta vida.... É cansativo tentar ser quem ajuda, sobretudo quando parece que a coragem para ajudar nem sempre está lá, porque a capacidade de estender a mão nem sempre atinge a mesma distância da capacidade de agir ou reagir. A cobardia e comodismo muitas vezes leva a melhor. Assim, é cansativo por vezes querer ajudar e não o fazer, sobrecarregando o pensamento de "ses"... É cansativo querer tentar ser melhor e não conseguir... É cansativo procurar a amizade onde ela afinal parece não existir... É cansativo tentar lutar por aquilo que não é possível alcançar... É cansativo viver nesta ilusão onde certas situações parecem ser pacíficas de conciliar, quando na realidade não se coadunam, fazendo com que se reviva a desilusão uma e outra vez, como se de um ciclo vicioso se tratasse... É cansativo querer não estar só e, no entanto, sentir na pele o ardume do vazio, da solidão... É cansativo pensar em quem nos rodeia e ainda assim parecer que não existe nin...

2025.2 - A Escrava Açoriana - Pedro Almeida Maia

Imagem
  A Escrava Açoriana - de Pedro Almeida Maia a sinopse do livro é a seguinte: “ No ano da Graça de 1873, o mundo pertence aos homens que cospem para o chão. Açorada por partir, Rosário oculta-se num enorme capote e capucho negro, tal como a maioria das mulheres. É uma adolescente irreverente, do contra, e desafia todas as convenções masculinas: rouba, corre descalça, luta com os punhos e até beija em público. No final do dia, lê Camilo e reza o terço com a mãe. As Ilhas Adjacentes são um misto de encanto e de escassez, afastadas do Reino e das promessas da Coroa. Os engajadores brasileiros aliciam os açorianos a viajar para o Império, com promessas de riqueza. A família de Rosário entrega tudo o que possui e embarca na escuridão. Mas a viagem no navio é calamitosa, uma nuvem de pessoas atoladas na própria imundície, e a chegada ao Rio de Janeiro oferece desafios inesperados. Rosário vive como uma escrava e vê o futuro esfumar-se. Perde o rumo, a virgindade e a esperança. Precisa de...

2025.1 - A morte de Ivan Ilitch de Lev Tolstoi

Imagem
  A imagem supra é " O convalescente, ou o homem ferido", detalhe cortado pelo artista,  Charles Auguste Émile Durand (Carolus-Duran),  de "A visita ao convalescente", c.1860 "  A morte de Ivan Ilitch, de Lev Tolstoi (1886) Sinopse: «Este livro tão breve, uma das maiores obras-primas do espírito humano, tem sido, desde a sua publicação, um motivo de controvérsia para a crítica: trata-se de uma obra sobre a morte ou de uma obra que nega a morte?» António Lobo Antunes É de facto um livro relativamente breve, isso no que respeita ao seu número de páginas. No entanto, já li outros tantos que, com o triplo de páginas, disseram-me muito menos do que este disse. Em relação ao termo “controvérsia” utilizado na sinopse, talvez o mesmo não se justifique assim tanto, já que uma obra sobre a morte pode ser, precisamente, uma obra que nega a morte. E é isso mesmo que este livro acaba por ser. Uma espécie de ensaio sobre a morte e algumas das coisas que podem estar relaciona...

2024.6 - Algo não está bem quando....

Imagem
Algo não está bem quando... Tu sentes, mas bloqueias esse sentimento, porque achas que não é o momento certo de sentir. E apercebes-te que o momento nunca chega a ter a sua oportunidade de viver e de se ramificar; Recebes a notícia de que, alguém que era suposto ser alguém próximo de ti, partiu, e vacilas sem saber o que sentir. Tentas procurar memórias que tragam algum vestígio de uma ligação com aquela pessoa, e concluis que, não tens sucesso, sentes que chegas à conclusão que, no fim de contas, era como se aquela pessoa fosse, afinal, um estranho qualquer, quando na realidade não o devia ser, quando no fundo, não era assim que devia ser; Precisas de um amigo, e por mais pessoas com quem possas criar algum tipo de ligação, não encontras nenhuma delas disponível para te ouvir; Te manténs em silêncio quando na realidade existe uma barulho ensurdecedor que não te permite mexer e te deixa preso na tentativa de encontrar um raciocínio lógico, uma explicação, uma solução; Sem mais nem meno...

2024.5 - Dispersão

Imagem
  Quanto mais penso menos consigo concluir. Um desencadeamento de pensamentos que me deixa à deriva entre o querer falar, querer dizer, e nada saber, nada dizer. Fico a tentar apanhar os fragmentos de pensamentos que entretanto ficaram dispersos e tento reordená-los. Mas qual é a ordem correta? Desconheço. Procuro-te algures na dispersão, mas nunca te encontro. Como se quisesse fazer de ti ouvidos. Como se quisesse fazer de ti um amigo. Mas não estás. Não sei porquê, mas não estás. Será que algum dia voltarás a estar? talvez não, porque se calhar nunca estiveste. Se estivesse capaz de conseguir chegar a conclusões, poderia concluir que, por vezes, quantas mais pessoas parece que temos ao nosso alcance, mais sozinhos estamos. Como se a presença ou disponibilidade das mesmas fosse algo perene. Tão frágil que nem sabemos se era realidade ou imaginação.  

2024.4 - A biblioteca da meia noite de Matt Haig

Imagem
  “A biblioteca da meia-noite” de Matt Haig Apesar de ser um livro que aborda alguns temas sérios e “pesados”, como é o caso da depressão e do suicídio, trata-se de um livro de leitura “fácil”, e de certa forma “leve”. Não querendo desvendar muito do que se passa no livro (para aqueles que tiverem curiosidade de o ler) posso alinhar as próximas palavras com aquilo que consta na sinopse do livro. Assim, acompanhamos a história (ou parte dela) de Nora Seeds, que, já passando a meia idade, dá por si insatisfeita com a vida que tem, que se traduz de certa forma num quadro clínico de depressão, em que considera que a sua vida acabou por ser uma série de fracassos pessoais, familiares e profissionais. Todas as suas aspirações parecem ter sido minadas com situações ou escolhas que resultaram num presente que, aos olhos dela, não parece ter nada que lhe faça querer agarrar-se à vida, nenhum objectivo ou razão pela qual vale a pena lutar para continuar nesse mundo (no mundo dela nesse caso)...

2024.3 - A passadeira

Imagem
Estávamos em Maio, num dia solarengo. O cenário era uma rua, cenário de cidade, pessoas a passar, carros a transitar.  Foram colocadas as personagens em cena. Nesse momento a acção concentra-se em apenas duas delas, como se o resto, à volta, ficasse escuro ou nublado. Essas duas personagens avançam ao longo da rua, em direcções opostas, cada uma delas imersa nas suas ideias e a seguir o seu destino.  Já lemos alguns capítulos desta história. Temos conhecimento que aquelas personagens já se conhecem, já se cruzaram, e que, por esse motivo, a cena que se desenrola indicia que iremos presenciar o seu reencontro. Portanto, do nosso ponto de vista, tudo desenrola-se de forma normal. No entanto, à medida que a distância entre as personagens encurtece, ao ponto de possivelmente se verem uma à outra, eis que uma delas tem uma reação inesperada, um movimento que surge por instinto, quase é quase como fecharmos os olhos quando algo se aproxima das nossas pestanas. Uma das personagem rec...

2024.2 - Livro “Antes Que o Café Arrefeça - De Regresso a Tóquio” de Toshikazu Kawaguchi

Imagem
Livro “Antes Que o Café Arrefeça - De Regresso a Tóquio” de Toshikazu Kawaguchi. Livro que dá continuidade, ou que complementa, o anterior livro com o mesmo nome “Antes que o café Arrefeça”. Este novo livro apresenta - nos 4 novas histórias, sendo que três delas são viagens ao passado e uma delas uma viagem para o futuro. As regras das viagens no tempo mantêm - se em relação ao livro anterior, sendo que, das várias regras ou condições existentes, as duas mais pertinentes são talvez o facto de não se poder alterar o presente quando se vai ao passado, e haver um limite de tempo, nesse caso relativamente curto, para se estar no passado ou no futuro. Os encontros a que assistimos, das personagens com algum familiar ou amigo, passados noutra linha temporal, parecem ser relativamente curtos (devido, precisamente, ao limite de tempo, regulado pela temperatura do café), mas consegue ainda assim ser manter a sua característica de ser como o ”auge” de cada história. É aquele momento que ansiamos...

2024.1 - Solidão

Imagem
 Uma coisa é a solidão que é pode sentir por se estar sozinho, outra coisa é estar preso ou ligado à uma solidão quase imposta, como se fossemos constantemente relembrados de que a solidão existe e está presente para não nos deixar sós.

2023.3 - A Mulher do Dragão Vermelho - José Rodrigues dos Santos

Imagem
“A Mulher do Dragão Vermelho” é um título que, sem ler a respectiva sinopse, pode levar-nos a pensar que estamos perante um livro relacionado com fantasia ou perante um livro que nos vai contar uma história de aventuras samurais algures no oriente. Mas não é nada disso que se trata. O livro fala-nos essencialmente da evolução do Partido Comunista Chinês (PCC), nomeadamente a sua relação com o mundo exterior, as suas atitudes e ideologias, e sobretudo as suas atrocidades para com etnias que embora parte delas com origens noutros países vizinhos, também têm alguma expressão (entende-se por expressão existência) na China.  Como é o primeiro livro que leio do autor José Rodrigues dos Santos (apelidado por alguns de “o Dan Brown português” … alcunha que, a julgar pelos títulos e temáticas dos seus livros, não é de estranhar) não me vou pronunciar sobre a personagem de Tomás Noronha que, pelo que sei, faz parte de outros livros do autor e é uma personagem recorrente nas suas estórias. O ...

2023.2 - As Velas Ardem Até ao Fim - Decisão

Imagem
Este Post era para ter sido publicado antes, mas ficou aqui como rascunho à espera de ver a luz do dia, a sua oportunidade de poder ser partilhado. Não que seja um post muito interessante, mas ainda acho sempre fica melhor partilhado do que guardado como rascunho.  No texto do post, quando se refere à "última entrada aqui no blog", estou em crer que o mesmo se refere ao post cujo título era ""Novas pessoas, novos amigos" (https://fragmentos-repartidos.blogspot.com/2022/09/novas-pessoas-novos-amigos.html). ----------------------- Há um livro cujo título sempre me cativou, mas que ainda não tive oportunidade de o ler. O mesmo chama-se "As velas ardem até ao fim" de Sándor Márai. Lembrei-me do livro ao acaso e curiosamente o seu título [quase que] encaixa na perfeição na última entrada aqui no blog. Não querendo com isso dizer seja literalmente o reflexo da realidade, mas a sinopse do livro centra-se também no tema da amizade, da distância, da ausência. ...

2023.1 - Escolhas

Imagem
  Ao longo da vida deparamo-nos com inúmeras escolhas, inúmeras situações em que temos de optar entre duas ou mais opções.  Algumas dessas escolhas são colocadas perante nós sem que sequer tenhamos noção das mesmas. Algumas vezes, só mais tarde é que nos apercebemos que tivemos de fazer uma escolha, pois na realidade até ao momento dessa percepção ou constatação, pensávamos que estávamos simplesmente a seguir o rumo das coisas. Contudo, existem outras escolhas que não podem ser evitadas, e sabemos que temos de tomar uma decisão perante a situação. Enfrentar as opções, tentar prever o resultado da escolha como se estivéssemos num jogo de xadrez, prever as jogadas e resultados que irão eventualmente corresponder a um futuro, almejando sempre uma possível vitória, o melhor resultado possível. Todavia, e dado que a capacidade de previsão poderá ser limitada até um certo número de jogadas possíveis, e também estar dependente de outras bifurcações que podem surgir, e ainda de condic...

Novas pessoas, novos amigos

Imagem
  Conhecer novas pessoas, e sobretudo novos amigos, é sempre uma experiência interessante, principalmente se for possível manter o factor surpresa como um dos ingredientes principais. A fase da descoberta, das semelhanças e das diferenças, dos interesses comuns e dos interesses tão diferentes dos nossos, a possibilidade de partilha de experiências e vivências já vividas e a possibilidade de novas convivências, resultando em momentos que se traduzem na criação de novas memórias. Não é tarefa fácil, sobretudo nos dias que correm, conseguir-se tal feito (novos amigos), daí que seja algo que adquire uma importância acrescida. Tal situação também dota-nos de uma nova responsabilidade, a responsabilidade de alimentar e nutrir a amizade, sob pena da mesma se desvanecer como o fumo que sobe no ar até não existir mais. Nesse caso poderíamos ainda sentir o cheiro, mas este apenas serviria para nos relembrar do fracasso, para nos fazer ver as cores da saudade. 

2022.3 - O Apocalipse dos Trabalhadores - Valter Hugo Mãe

Imagem
O Apocalipse dos Trabalhadores... de Valter Hugo Mãe Livro que retrata a vida, aparentemente simples, das poucas, mas suficientes, personagens que encontramos neste livro, mais precisamente ... Maria da Graça, mulher a dias; Quitéria, que também faz o mesmo que a sua amiga Maria da Graça, embora também seja uma carpideira "profissional"; Sr. Ferreira, senhor com alguma idade, abastado, patrão de Maria da Graça...e entre os quais as coisas podem complicar-se e tornarem-se muito sérias! Augusto, marido da Maria da Graça, passa grandes temporadas a trabalhar no estrangeiro; Contudo, são nesses momentos de ausência, que Maria da Graça sente-se livre, pronta para enfrentar a vida de outra forma. Andriy, emigrante dos países de Leste, a viver e a trabalhar em Portugal em busca de novas oportunidades, para tentar construir uma vida com maior estabilidade e ainda assim tentar ajudar os pais que deixou na Ucrânia, tentar proporcionar-lhes um futuro melhor [isso ainda antes da guerra a...