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Naquela Janela - III

"O medo de não saber medir o poder das palavras ou o poder do silêncio quando aplicados no momento errado, o medo de não saber reagir...o medo de uma janela, daquela janela e daquele momento". Só lhe passava pela cabeça que, naquele momento, ela pudesse desistir de si, desistir da sua vida e de tudo, porque vê-la sentada naquela janela era o mesmo que vê -la caminhar em direcção ao desconhecido, na direcção do abismo. Era isso que indicavam os olhos dela. A sua cara pintada com um rasto de lágrimas que não eram mais do que as suas pegadas ao longo daquela caminhada. Ele olhava para ela e tentava ir ao encontro dela através do olhar, mas as lágrimas secavam tão depressa com o vento que soprava pela janela e levava consigo o rasto das pegadas. Mas mesmo assim ele não desistia de ir ao encontro dela, ao encontro do epicentro de toda a angústia que ela poderia sentir naquele momento. Ele sabia que aquele era o momento em que se apercebera que os seus actos não eram simples gesto...

O dia de hoje

Por mais que quisesse ignorar este dia, eu sei que felizmente [e infelizmente...mas essa parte refere-se só a mim] não conseguiria porque há pessoas que não deixariam que isso acontecesse. Apesar de ser um dia igual a muitos outros em diversos aspectos, há algo nele que marca a diferença e de tempos a tempos ele estabelece simultaneamente uma meta e um ponto de partida. Mesmo que a transacção se desvaneça numa nuance de cores, de horas, de momentos, passando quase irreconhecível. Podia ser simplesmente o dia entre o ontem e o amanhã, mas o dia de hoje é um dia de reflexão [dentro do possível], como se os pensamentos dos outros dias ganhassem sons e os esses tivessem liberdade para seguir contornos diferentes desaguando em pequenos corredores. Tudo o que é inverso ao positivo nesse dia é desafiado nos pratos da balança pelo peso da felicidade [ou lá o que isso pode ser para cada um de nós] que resulta de pequenos gestos que no dia de hoje fazem diferença e dizendo isso, posso concluir ...

Naquela Janela - II

Um objectivo já havia sido predefinido, no entanto os caminhos que os levaram a estar naquele momento entre aquelas quatro paredes, como se conhecessem há imenso tempo, mas que na realidade ainda eram relativamente estranhos um ao outro, eram caminhos improvisados, frutos do acaso, frutos do desentendimento e da busca de sentimentos perdidos ou sentimentos nunca encontrados. O que para ela parecia ser a correcção de um erro, para ele acabava por ser a criação de outro erro, e no meio de toda a ambiguidade que dominava aquele espaço e as decisões que tinham de ser tomadas, uma espécie de afastamento falou mais alto e de um momento para o outro era como se nada fizesse sentido para ambos. Ele sentou-se no sofá, deixando os cobertores e lençóis abandonados em cima da cama e ficou em silêncio. Ela também se levantou, caminhou até à janela e sentou-se no parapeito contemplando a noite, as luzes dos edifícios ao longe e dos carros que passavam esporadicamente na rua, alguns andares mais aba...

Sim e Não

Por vezes um "Não" é muito mais do que 3 letras, é muito mais do que um universo, é um infinito de acontecimentos que morreram antes de terem oportunidade de ganhar forma, morreram antes de viver. São mais que 3 letras que dão lugar ao silêncio e à vergonha. Mais que 3 letras que muitas vezes conseguem ser aquilo que verdadeiramente são...o negativo, o impossível, o invisível, o não existir, não querer nada e o não viver nem deixar viver. É preciso aprender a usar esses conjuntos de 3 letras: SIM e NÃO ....tão simples e tão complexas, tão insignificantes e tão determinantes...o tudo e o nada!

Naquela Janela - I

E assim foi, algures num mês de Maio, certamente já distante e sobreposto por muitos outros meses e alguns anos, duas personagens que podiam ser Mathias e Alice ("Solidão dos números primos"), mas que não eram, talvez para esse par estejam reservadas outras palavras, outros destinos e outros momentos, deram por si num quarto. Um quarto que não era o dele nem era o quarto dela. Era um quarto de todos e ao mesmo tempo um quarto de ninguém. Por mais coisas que tivessem naquele quarto, objectos, roupas, seriam somente os momentos vividos aquilo que lhes pertencia verdadeiramente e ao qual podiam chamar "seu", de ambos e não de um só. Naquela noite, as paredes daquele quarto transformaram-se em cenários onde tudo podia acontecer e onde certas situações poderiam ser apenas um teste ou acontecimentos reais. Eles não o sabiam e estavam apenas a desempenhar os seus papéis. Afinal de contas todos nós somos personagens a desempenhar o nosso papel nos cenários da nossa vida e ...

Quando somos um só

Nos momentos em que eu e tu somos um só, nos momentos em que todos somos um só, as coisas não têm preço, mas têm um valor. Um valor que não se quantifica, mas que se vive. Um valor através do qual nos sentimos confortáveis, seguros, sem preocupações, sem pensamentos negativos...a alma enche-se subitamente de um bem-estar que surge quase do nada e nos deixa satisfeitos. Um valor equivalente ao movimento de um conjunto de roldanas que se movem em conjunto e em conjunto alcançam o progresso devido à sua sincronia, à sua união. É o que acontece quando conseguimos estar bem connosco, estar bem com os outros, estar bem, simplesmente bem e com vontade de seguir em frente, alcançar objectivos, perseguir sonhos, traçar metas e correr na sua direcção. Os mal-entendidos nascem das mais pequenas migalhas de nada e muitas vezes incham como um grão de milho afogado em óleo fervente que dá origem às mais variadas formas após explodirem. Crescem e alastram-se, ocupam todos os cantos, sufocam o ar como...

Pensamentos soltos I

Vim aqui matar saudades deste espaço que tenho deixado abandonado por alguns dias....faminto de palavras, deserto de sons e vazio de sentimentos. Geralmente o que tento deixar aqui tem uma razão de ser, razão essa muitas vezes (senão sempre) ligada aos sentimentos e pensamentos (a que mais podia ser?) e o facto deste espaço andar vazio não quer dizer que não se passe nada, que não haja vida, pois essa existe. Simplesmente tem faltado aquele tempo de reflexão, aquele tempo de direccionar os pensamentos para as palavras e fazer delas algo que ganhe existência, mesmo que essa seja virtual. Algo que aprendi há uns tempos atrás, foi que, aquilo que à partida parece ser algo apenas virtual, pode não o ser, porque quando as palavras que fazem parte de um mundo digital nos dizem tanto e nos tocam verdadeiramente, elas ganham vida própria no mundo real, ganham uma forma, ganham um contexto, ganham uma existência que nos marca e que nos liga. O que seriamos nós sem essas ligações?! (sei que já d...