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Naquela Janela - I

E assim foi, algures num mês de Maio, certamente já distante e sobreposto por muitos outros meses e alguns anos, duas personagens que podiam ser Mathias e Alice ("Solidão dos números primos"), mas que não eram, talvez para esse par estejam reservadas outras palavras, outros destinos e outros momentos, deram por si num quarto. Um quarto que não era o dele nem era o quarto dela. Era um quarto de todos e ao mesmo tempo um quarto de ninguém. Por mais coisas que tivessem naquele quarto, objectos, roupas, seriam somente os momentos vividos aquilo que lhes pertencia verdadeiramente e ao qual podiam chamar "seu", de ambos e não de um só. Naquela noite, as paredes daquele quarto transformaram-se em cenários onde tudo podia acontecer e onde certas situações poderiam ser apenas um teste ou acontecimentos reais. Eles não o sabiam e estavam apenas a desempenhar os seus papéis. Afinal de contas todos nós somos personagens a desempenhar o nosso papel nos cenários da nossa vida e ...

Quando somos um só

Nos momentos em que eu e tu somos um só, nos momentos em que todos somos um só, as coisas não têm preço, mas têm um valor. Um valor que não se quantifica, mas que se vive. Um valor através do qual nos sentimos confortáveis, seguros, sem preocupações, sem pensamentos negativos...a alma enche-se subitamente de um bem-estar que surge quase do nada e nos deixa satisfeitos. Um valor equivalente ao movimento de um conjunto de roldanas que se movem em conjunto e em conjunto alcançam o progresso devido à sua sincronia, à sua união. É o que acontece quando conseguimos estar bem connosco, estar bem com os outros, estar bem, simplesmente bem e com vontade de seguir em frente, alcançar objectivos, perseguir sonhos, traçar metas e correr na sua direcção. Os mal-entendidos nascem das mais pequenas migalhas de nada e muitas vezes incham como um grão de milho afogado em óleo fervente que dá origem às mais variadas formas após explodirem. Crescem e alastram-se, ocupam todos os cantos, sufocam o ar como...

Pensamentos soltos I

Vim aqui matar saudades deste espaço que tenho deixado abandonado por alguns dias....faminto de palavras, deserto de sons e vazio de sentimentos. Geralmente o que tento deixar aqui tem uma razão de ser, razão essa muitas vezes (senão sempre) ligada aos sentimentos e pensamentos (a que mais podia ser?) e o facto deste espaço andar vazio não quer dizer que não se passe nada, que não haja vida, pois essa existe. Simplesmente tem faltado aquele tempo de reflexão, aquele tempo de direccionar os pensamentos para as palavras e fazer delas algo que ganhe existência, mesmo que essa seja virtual. Algo que aprendi há uns tempos atrás, foi que, aquilo que à partida parece ser algo apenas virtual, pode não o ser, porque quando as palavras que fazem parte de um mundo digital nos dizem tanto e nos tocam verdadeiramente, elas ganham vida própria no mundo real, ganham uma forma, ganham um contexto, ganham uma existência que nos marca e que nos liga. O que seriamos nós sem essas ligações?! (sei que já d...

Estaria a mentir

Os últimos tempos têm sido algo agitados. Podias pegar neles e transformar cada momento numa pedra colorida e guardar num frasco de vidro transparente. Cada cor um sentimento, cada cor uma situação, cada cor uma recordação. Esse frasco seria a minha memória, o portefólio da minha existência. Eu olharia para esse frasco e o que é que ele me diria?! Uma infinidade de coisas... Tenho a vantagem de ter este espaço ao qual posso recorrer e deixar algumas dessas pedras espalhadas, alguns fragmentos. Os que não ficam aqui, são como fogo de artificio que é lançado ao encontro das nuvens ou da lua, ao encontro de um céu que me olha e no qual posso confiar. Um fogo de artificio onde as minhas palavras assumem diversas formas, diferentes direcções, cores distintas e sons diversos. É um fogo de artificio que pode causar impacto, quer pela positiva, quer pela negativa. Mas o importante é saber que estará lá alguém atento a olhar para o céu a assistir àquilo que sinto, àquilo que digo, é esse o pod...

Um Universo de Possibilidades Infinitas

"E se essa teia invisível que nos une quebrasse, acabasse... E depois? O que seria de biliões de almas solitárias e desconectadas? Aqui reside o maior desafio das nossas vidas. Descobrir, conectar...Resistir. Enquanto nossos corações forem puros, e nossos pensamentos sãos, seremos realmente um só, capazes de reparar o nosso frágil mundo, e criarmos um universo de possibilidades infinitas ." (Heroes, Volume 4) De uma forma ou de outra acabamos por estar todos ligados, envolvidos nessa grande teia de infinitas ligações, umas reais, outras imaginárias. No entanto, sei que esse pensamento, essa conclusão, tem os seus dias invisíveis e nesses dias não serve de muito, pois na realidade sabemos que a teia não se alastra ou resiste tanto quanto muitos de nós gostariamos. Quantas ligações ficam bloqueadas?! Quantas se desligam com o passar do tempo?! Quantas deixamos passar ao lado? Quantas são mal interpretadas? É um labirinto no qual os becos sem saída estão presentes e onde é preci...

Transparência

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Aos olhos de quem não tem tempo nem paciência para grandes caminhadas sei que não sou feito de vidro transparente. No entanto acredito que o percurso da minha opacidade à minha transparência não seja tão longo quanto a muralha da china porque antes que essa fosse percorrida, a essência já teria sido apurada, e nessa altura sim, já era possível existir alguma transparência, mas talvez o estilo de vida dos nossos dias só permita o consumo rápido de tudo e de todos. Tudo tem que acontecer em momentos fugazes onde os juízos pré-definidos e estereotipados são o prato principal. Acaba-se por ganhar um rótulo e com esse rótulo, uma série de atributos listados e enumerados como se fizessem parte da lista das compras semanais. O meu silêncio deixa de ser uma simples ausência de palavras e transforma-se em traços que supostamente me esboçariam numa folha da papel reciclado, amarrotado, pronto a colocar no cesto do lixo porque algo que é vazio, sem valor e altamente prejudicial ao que está em red...

Centímetro

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Era o inicio de mais um dia e eu, juntamente com as ausências repartidas pelas outras três cadeiras, estávamos a fazer companhia àquelas duas mesas juntas. Juntas como as restantes mesas do café que mais parece um corredor e por isso as mesas têm de estar acasaladas, tornando-se muitas vezes apenas uma mesa em vez de duas porque estão de mãos dadas por baixo dos seus tampos... Será que se estivessem desviadas 1 centímetro seria diferente?! Acredito que sim! E sei que outras pessoas também pensam o mesmo, ou pelo menos a maior parte delas porque há sempre excepções à regra, e hoje, tu foste uma dessas excepções. E foste-o porque talvez 1 centímetro não signifique nada para ti ou então porque não havia necessidade de separar as mesas porque essa separação pode ser apenas psicológica, onde um centímetro pode corresponder a um metro! E foi assim, sentaste-te na cadeira que estaria à minha frente se não estivesse na mesa do lado e permanecemos ali em silêncio, a olhar em direcções opostas...