16.4 - O Conto do "Fragmentos Repartidos" (by Margarida)

Este post é dedicado ao texto/conto que foi escrito, muito bem escrito, pela Margarida (do blog: mas tu és tudo e tivesse eu uma casa tu passarias à minha porta) no seguimento do desafio relacionado com os contos das 250 palavras que ela faz questã de cumprir. Os bloggers interessados tiveram um "prazo" para solicitar um conto à Margarida...e a seu tempo, cada um é presenteado com o seu respectivo conto. Acho que, à semelhança do que aconteceu comigo, acabamos todos por ficar na expectativa de ver o resultado ou o que lhe "saí na rifa". Será que vai haver alguém que não vai gostar do seu conto?! Duvido muito que isso aconteça! Só o facto de saber que alguém dedica algum do seu tempo a criar algo para nós já é gratificante, pois nos dias de hoje parece que o que falta a todos nós é tempo, precioso tempo.

Aqui segue o "meu" conto:

O conto do Fragmentos Repartidos

   Se não fosses meu amigo
 
   A praia estava vazia àquela hora, enquanto esperávamos que o sol nascesse, sentados ao fundo das escadas, as bicicletas encostadas no pilar do passadiço lá no alto. À nossa frente, ouvíamos o incessante ribombar das ondas coroadas de espuma que rebentavam na areia. Esperávamos pela primeira aurora do mês de Dezembro, com as pernas encolhidas e o queixo assente nos joelhos. Tiritavas de frio, a gola levantada do casaco de bombazine e o gorro não eram suficientes. Por baixo do camisolão de lã, espreitava a tua camisola de pijama. Quinze minutos antes, tinha-te acordado com meia dúzia de pedrinhas atiradas ao vidro da janela do teu quarto. Abriste um pouco, consegui vislumbrar uma manga azul, acenaste e alguns minutos depois, arrastando a bicicleta, apareceste nas traseiras da casa.
   Não tiravas os olhos da grande bola laranja que começava a crescer num céu de Inverno sem nuvens. Sem o saber, guardavas um tesouro no bolso de dentro do casaco. Na semana anterior, tinhas-me pedido o canivete emprestado. Encontraste um pedaço de madeira no pinhal ao pé da tua casa e talhaste uma âncora, o meu nome e a data do meu nascimento. Nesse dia, eu fazia quinze anos.
   Durante muito tempo, eu não consegui dizer uma palavra, apertando-o até os nós dos dedos ficarem brancos. 
   Se não fosses meu amigo, hoje não estaria neste navio, no outro lado do mundo, onde é Verão. Faço quarenta anos e vejo o teu rosto no sol que agora nasce.

Quando li este conto, a primeira coisa que me lembrei, devido à imagem que inicialmente imaginei/visualizei, foi de um pequeno texto que escrevi e publiquei aqui no blogue há muito tempo (http://fragmentosrepartidos.blogspot.pt/2007/10/sentar-ou-deitar.html)...um texto em jeito de divagação, como tantos outros aqui presentes, mas que tem na sua essência algo comum com este texto da Margarida...a amizade. A amizade, a verdadeira e sem interesses e segundas intenções, que não é fácil e deve ser por isso valorizada.

Para finalizar, deixo aqui mais um agrdecimento à Margarida.


Comentários

  1. Reconheço que a amizade é um sentimento maior. Não poderia estar mais de acordo com o que escreveste na parte final deste post.

    Lindo, o conto de tua amiga.

    O tema musical de hoje (tens um feeling musical muito interessante) chamou minha atenção - "Don't say hi if you don't have time for a nice goodbye"

    Nem sempre as pessoas dizem 'um afectuoso adeus.'

    Vim agradecer teu comentário em 'fragmentos'.
    Bjs

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